THE ETERNAL SPECTATOR - LOUD! #64
Eis o artigo que o "nosso" Ferando Ribeiro, colunista mensal na Loud! escreveu para a edição de Maio, no seu habitual espaço The Eternal Spectator.
WHEN THE MUSIC IS OVER*
Apesar dos três últimos artigos seguirem uma sequência algo apertada e previsível, existem, hoje em dia tendências e persistências [de factos e sentimentos] que justificarão esta trilogia não anunciada, mas me que ocupará hoje o espírito e as palavras.
Provavelmente o nome John Kennedy , pouco dirá aos nossos leitores ou, por outro lado, remeterá para um imaginário social norte-americano que não vem aqui ao caso [deixemos isso para outras publicações/sensibilidades]. Numa apresentação muito curta, este senhor é o presidente e administrador executivo da IFPI, a federação que representa a indústria fonográfica em todo o mundo e, que, pretende exercer os seus direitos [cedidos pelos artistas em contrato] ao processar judicialmente utilizadores que fazem, partilham e cedem ficheiros de música ilegalmente. Muita tinta politicamente correcta correu e muita voz individual contra-sistema se fez ouvir, passando por cima, como em tudo nesta guerra virtual de perdedores, dos direitos e dos deveres de quem ouve, faz e vive a música, estados hoje em dia condenados à mais pura das extinções, sem meias palavras ou falsas esperanças.
Facto: as pessoas só contam a parte da história que lhes convém. E, perante a refutação ou desmontar pleno das suas versões, acrescentam novos capítulos à história que circulará sempre à volta de um umbigo voraz que está a comer tudo quanto de belo existia na música: a sedução, a surpresa, o gosto e o esforço. Nessa parcialidade englobam-se opiniões atestadas de que fazer só um download é legal, de que as editoras já ganharam muito dinheiro e que é agora altura de serem castigadas, de que já pagam impostos pelo uso da ‘net e pela compra dos CD-Rs… Enfim, ouve-se e prova-se de tudo, num turbilhão de informações e convicções que abala o mais motivado dos músicos.
Esclarecendo, se muitas destas opiniões se reportam a verdades “quase verdadeiras”, outras são absurdas e imorais. O primeiro download não autorizado e não pago é crime; a partilha de ficheiros [mesmo com boas/ingénuas intenções] também o é e desrespeita o direito de autor, consagrado na Lei e na consciência dos povos ao lado dos direitos da Humanidade, privilegiando assim a imaginação, a criatividade sem as quais a vida seria uma insuportável rotina de comportamentos formatados e ambições primitivas. Se é um facto que as editoras promoveram durante muito tempo uma espécie de nova escravatura com contratos baseados na premissa de que era um privilégio para o autor ser editado e que o seu amor pela música o alimentaria [a todos os níveis], está agora a perder-se uma boa oportunidade de diálogo construtivo porque o valor da vingança fala mais alto, a sede do grátis tudo justifica para lixar aqueles cinzentos executivos e mesmo que a música se extinga irá valer a pena, porque o poder inebria tudo e todos. Na zona do fogo cruzado o músico sofre, ferido por todos os lados, enquanto tenta equilibrar nas mãos nuas o fogo de fazer, o prazer de comunicar e a força do sobreviver.
Porque, repito, as pessoas só contam da história o que querem. Porque se quiserem ver uma banda na sua cidade, esta só virá se as vendas o justificarem [os downloads não contam], e essa desculpa de haver mais gente nos concertos e de comprarem merchandise estará exausta em pouco tempo, pois depende da mobilidade da banda o fazer chegar tal material da sensação às pessoas e também a esse nível sofrem duros golpes da contrafacção tolerada e pouco combatida por Estados inábeis, preocupados mais com o conforto das cadeiras [que pouco usam] da Assembleia Parlamentar. Neste aspecto, utilizadores e executivos confundem-se e tornam-se não naquela essência e garantia de possibilidade da sobrevivência de um músico, mas sim no seu executor. O problema é grande porque ambos se sentem a praticar um direito e enquanto não adquirirem, à força da Lei e não da formação, infelizmente, hábitos diferentes, a sangria do criativo nunca estacará. Afinal, leia-se com ironia, o músico poderá sempre comer amor, lavar-se com a poesia das palavras e habitar nos sonhos destruídos. Entretanto, a vingança continua alheia ao que vai devorando.
Por isso a entrevista de John Kennedy é mais que uma lição de clareza: é um entendimento cristalino do que se passa, e trespassa, sem rodeios, o coração de uma relação que se tornava hipócrita entre feitores, editores e consumidores. Comparar o preço de um download de um tema a uma garrafa de Coca-Cola pode não ser o recurso mais romântico mas alerta para a dimensão do problema, especialmente na sua pequenez, e que me faz, em definitivo, deixar de tentar arranjar, eu próprio, desculpas para as pessoas que fazem downloads ilegais e que culminam o seu acto com a vileza de não comprarem o disco, ultimando a vingança contra Estado [impostos], editoras [preços] e músicos [que é isso de viver da música, hã? Querias…]. E tudo isto cria um sistema ainda mais cruel: o de fazer o disco para o tribunal da ‘net, onde todos se queixam de tudo [até de haver edições especiais com temas bónus!]. Talvez o CD perfeito que apetece lançar seja um CD virgem completamente em branco, com um encarte também ele branco de modo a que os iluminados preencham com aquilo que ferve nos seus corações feridos pelos desvios criativos das bandas, pelos risos amarelos dos editores, pelo dinheiro que já não vão gastar nas experiências para toda a vida de uma cerveja e um hambúrguer, em detrimento de algo que lhes pode conferir luz e vida eterna. Uma espécie de livrinho de reclamações.
Em resumo, a sedução está morta. Estes são os tempos do investimento. Ir comprar um CD já não é um acto simples de paixão. É um acto pensado, questionado até ao último cêntimo, mais inspirado pela cedência e por um sentimento quase caridoso, do que pela vontade de se completar ou de se desiludir… Afinal as duas únicas sensações que a música nos pode ensinar e ambas essenciais à nossa humanidade. Tenho pena. Mas ainda assim continuarei a sentir-me especial enquanto me rodeio de quem também é especial.
Spectator
* Jim Morrison [The Doors]

Comments
O download de um simples disco é crime. Sim. Mas apesar das contradições desse acto (que hoje é mais comum do que encontrar árvores nas ruas), ainda há muitas pessoas que vivem a sacar álbuns e álbuns e mais álbuns de música. Mas quem nunca sacou um álbum pela Internet que atire a primeira pedra. E eu não atiro, porque de nada me vale negar. Para quem sabe os problemas dos dias de hoje, sabe que gastar 20 euros num cd de música é uma fortuna, e porque raio serão tão caros? Pela qualidade? Porque simplesmente “lhes” apetece rotular com preços astronómicos?.. nós fazemos a nossa própria cama, e no entanto, às vezes recusamo-nos a fazê-la…a industria discográfica também está a atravessar dias difíceis tal como uma outra industria que pode falir a qualquer momento, não pensem que tudo se resolve num estalar de dedos!...a pirataria arrasou-a e vai levar muito tempo a “sarar”…as vendas caíram, mas mesmo assim há quem pense que os músicos ou os cantores vivem em palácios de luxo, como muita gente vê na mtv…apenas uma reflexão fazia bem a todos,e apenas quero salientar que em nome das nossas bandas elementares, o seu êxito não se dá pela popularidade que têm mas pelo esforço, paixão e trabalho.
\m/
Posted by: aquariuslave | junho 20, 2006 04:30 PM
Caro Fernado até te fica mal falares assim porque se uma banda de metal tem fama e reconhecimeto é devido à pirataria. Para se começar a ouvir metal é necessário que alguem nos mostre que o metal existe...seja com o irmão mais velho, amigos, etc...e com a quantidade de bandas que por aí andam é complicado saber quais são boas e quais nunca deveriam ter entrado num estudio. Só depois de se conhecer uma banda e de gostar dela (nem que seja por algumas músicas) é que o interesse por possuir originais surge. Sim, porque um fã quer o original e não uma cópia. E como deves calcular, não se acorda e pensa: "Hoje vou deixar de ouvir pimbalhada e começar a ouvir death metal". Isso só acontece após ouvir muita coisa, mas mesmo muita. E como a paixão por "devorar" albums de um metaleiro é grande, e os preços dos albuns muito elevados, recorre-se à pirataria. Agradece à pirataria por a tua banda ter a reputação que tem e actualmente vender albuns porque sem ela (pirataria) uma banda de metal nunca sai do desconhecido. Mas eu até compreendo a tua posição, Moonspell já tem essa fama que necessitava para começar a vender discos, daí seres contra a pirataria.
O que eu também discordo é a venda de CD´s pirata, mas em relação à cedencia de CD´s pirata não há nada a fazer. Ou isso, ou nunca haverá espaço para o reconhecimento de novas bandas. E não é por um gajo da LOUD dizer que X album é bom que eu o vou comprar porque há aí pessoal revisor da LOUD que não percebe do que fala quando critica um album.
Cumprimentos
Posted by: Eu | julho 13, 2006 06:26 PM
A música deve ser distribuida para toda a gente, não só para quem compra! Alias, se não fosse os downlaods, nunca teria álbuns verdadeiros dos Moonspell!
Ou pensam que eu compro qualquer coisa? Temos o direito de ouvir antes de comprar! È como esperimentar umas calças, antes de as comprar!
A música no panorava mais extremo em portugal, está a desenvolver-se bem, e muito devido aos downloads!
Repara, mais downloads, mais pessoas ouvem a banda, mais audiçoes, mais pessoal nos concertos, mais pessoas nos concertos, mais discos vendids, mais discos vendidos, mais bandas em grandes editoras, e por aí fora! Se querem portugal sem downloads, é um portugal ignorante e com falta de musica!
Posted by: Tiago | julho 28, 2006 05:35 PM
A este respeito leiam o seguinte texto:
http://metalincandescente.blogspot.com/2005/11/opinio-bootlegs-oficiais-um-negcio-com.html
Posted by: Dico | agosto 4, 2006 08:12 AM
Diga-se que os CD's sao realmente careiros mas uma pessoa quando gosta de uma banda gosta de ter sempre o original. Ha muito que me dediquei aos concertos "locais" e costumo assistir a bons concertos principalmente no Barreiro e quando gosto do que oiço nao me importo de dar 5 euros por 1 EP com apenas 4 faixas. É claro que tenho milhares de mp3 tirados da internet mas nao é isso que me faz a mim ou a outra pessoa deixar de comprar porque se nao os tivesse "sacado da net" nao teria de qualquer maneira comprado o album "X" so porque tem aquela musica que ate simpatizo. Quando somos fans e seguidores de uma banda compramos sempre o original..o resto dos mp3 que temos nos nossos pc's sao apenas complementos.
Posted by: Periquito | agosto 11, 2006 01:29 AM
I agree all those comments above.I can't either afford every cd I want and,of course I listen to the releases first in order to decide if it really deserves the pitty to bye it.In fact that's why I bought Memorial.Sorry,I can read portuguese but can't write it.It's not my language.Thanks for the chance.
Posted by: Ada | setembro 1, 2006 05:09 PM
Tenho de concordar com os comentarios feitos anteriormente de que a internet serve muito para "ver" o que é bom ou não, e depois então se comprar um album de que se gosta... Que serve para fazer fãs e seguidores de bandas que posteriormente compram os cds dessas mesmas bandas.
Mas tomemos o exemplo dos the offspring, banda de punk/rock americana, que após uma desavença com a sua editora (epitaph) e a passagem para a Columbia records passaram a possibilitar o download das suas musicas no site oficial. Estão la todos os albuns ate agora feitos para download, e alguns albuns estiveram disponiveis no site antes dos proprios sairem para venda!!!
Não me parece que eles estejam a ir a falência, e pelo contrário, que com este processo, estão a ganhar mais fãs e logo mais potenciais compradores dos seus albuns!
Posted by: Matt | janeiro 9, 2008 11:24 PM
A compra de um cd é um acto de pura consciencia social que contraria a actual tendencia de pensar (acto raro nos dias de hoje cá por estes lados) que a arte é como a comida daquela famosa cadeia de restauração americana, de plástico! Sinceramente a maneira de pensar das massas para mim passou a ser algo com que me deixei de preocupar há muito tempo! Vou ouvir o cd de Jimmy Hendrix que comprei por 1euro após arrumar o monte de albuns (onde lista 2 exemplares do irreligious, uma original, outra fez-me descobrir moonspell por meios ilicitos)que se encontram em cima da aparelhagem, vou fechar os olhos e por momentos sentir-me um rei do blues e um anormal para a minha idade.
João Rodrigues
Posted by: João Rodrigues | setembro 20, 2008 12:07 AM
Uma das alegações mais comuns que aqui foram feitas, é que os downloads ilegais, fizeram muito pela projecção internacional de bandas, como os Moonspell. Pois deixem-me vos dizer, que antes de haver downloads ilegais, já havia Moonspell, e como foram um caso precoce de internaciolização, escolheram mal o exemplo. Parece-me que há uma ideia mais ou menos generalizada, de que antes de haver downloads ilegais, a internacionalização era inexistente, ora isso é tão ingénuo que é quase triste! Antes de haver mp3 não se ouvia música? Quando as pessoas davam valor à musica, o acto de comprar determinado álbum estava revestido de grande espectativa e solenidade e nem a "fome" de metal era menor (eu só precisei de ouvir 1 álbum para ficar para sempre fã de metal, ao contrário do autor de outro comentário aqui feito, mas como antes não ouvia "pimbalhada", se calhar reside aí toda a diferença!), nem os preços dos Cds eram mais em conta. Sempre houve pirataria, mas se isso só por si já não justifica a sua continuação, ainda menos se compararmos a cópia do CD do amigo, ás cataratas de downloads que a maioria das pessoas hoje faz; são volumes completamente diferentes. Para finalizar, há maneiras legais de se ouvir um álbum ou uma banda antes de adquirir o CD, por isso deixem-se de desculpas. Comprar o original é um acto cultural e social que revela inteligência e sensibilidade e distingue-se da fácil "esperteza" à Zé Povinho, que continua a perpetuar-se, mas que agora é um consumista voraz.
Cumprimentos.
Posted by: Bo | fevereiro 13, 2009 07:52 PM